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Como a maconha uniu grandes cantoras

Updated: Mar 8

O poder da maconha criar conexões entre as mulheres é forte, apesar do proibicionismo tentar sufocá-lo. Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a Xah com Mariaz conta a como quatro lendas da música mundial se tornaram amigas por causa da erva. Em comum, ambas histórias são protagonizadas por artistas perseguidas por fumarem maconha, eram consideradas ousadas e à frente do tempo delas. RITA LEE E ELIS REGINA Vestindo um terno branco, colete verde e botas pretas, Rita Lee chegou à 20ª Vara Criminal, em São Paulo, pouco depois das 13h. No corredor de acesso ao tribunal, advogados e funcionários do fórum se misturavam a estudantes e hippies cabeludos com roupas coloridas. Durante a audiência, enquanto o promotor Neuton Ramos pedia a condenação da artista, ela se manteve séria, olhando de vez em quando para os jornalistas. Mas, naquela quinta-feira, dia 2 de setembro de 1976, quando o juiz Antonio Aurélio Maciel leu a sentença, a roqueira de 28 anos começou a chorar.


Rita se encontrava presa desde a semana anterior. Ela estava grávida de três meses de seu primeiro filho, Beto Lee, quando, às 7h30 do dia 24 de agosto, a Divisão de Entorpecentes bateu à porta de sua casa na Vila Mariana. Na versão da polícia para a imprensa da época, os agentes foram à residência da cantora após receber denúncias sobre uso de drogas durante a temporada de shows da roqueira com a banda Tutti-Frutti no Teatro Aquarius. Na manhã da prisão, a tia da artista abriu a porta, os agentes entraram, reviraram tudo e, mais tarde, disseram ter encontrado no local 300 gramas de maconha, restos de cigarros e um narguilê.


Numa entrevista à revista "Quem" em 2010, Rita disse que aquilo foi tudo plantado pela polícia. Na época, ela garantiu que a droga não era sua e que ela tinha parado de fumar porque estava grávida. Mas os agentes não deram ouvidos. O Brasil vivia uma ditadura militar e, ainda que em 1976 o governo já cogitasse a abertura política, as polícias estavam comprometidas com uma guerra declarada a usuários de drogas. Hippies eram tratados como bandidos e, segundo a cantora, ela foi usada de troféu. Até porque Rita simbolizava a liberdade sexual feminina em um período muito conservador do país. Várias de suas músicas foram consideradas eróticas demais e censuradas ou modificadas para não ferir a "moral e os bons costumes".


A ex-vocalista dos Mutantes foi presa junto com suas empresárias e oito integrantes da Tutti-Frutti. De início, ela ficou no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Foi lá que, no segundo dia de xadrez, apareceu ninguém menos que Elis Regina levando pela mão o filho João Marcello Bôscoli, então com 6 anos. "Na época dos festivais da Record, Mutantes e Tropicalismo, Elis passava pela gente virando a cara. Ela fez parte daquela passeata contra a guitarra elétrica na música brasileira. A última pessoa que eu esperava que fosse me visitar na cadeia era a Elis", contou Rita numa live com o amigo Ronnie Von, em novembro do ano passado. "Quando o carcereiro falou: 'Ô, Ovelha Negra, tem uma cantora famosa rodando a baiana, dizendo que vai chamar a imprensa. Ela quer te ver'".


Hoje com 73 anos de idade, a roqueira disse que saiu da cela curiosa para saber de quem ele estava falando. "Fiquei esperando, não sei, uma Nossa Senhora do Rock, e, de repente, vejo a Elis com o João Marcelo. Ela soltou a mão do filho e me deu um abraço. Perguntou como eu estava, disse que eu estava muito magra. Aí começou a falar duro com os policiais: 'O que vocês estão fazendo com ela?'", relembrou Rita. "O que ela berrou, o que ela aprontou lá dentro... E você pensa que os caras falavam alguma coisa? Não falavam nada. Ela baixinha cobrando: 'Eu quero um médico já. Se não vier já, eu chamo a imprensa'. Ninguém mexia com a Elis. Ela era do Olimpo. Que mãezona! Mandou que comprassem comida para mim, deu dinheiro e ainda pediu troco (risos). Me ajudou como se fosse uma amiga de infância".


A roqueira dos cabelos ruivos também era grande na cena nacional. Em 1975, lançara o disco "Fruto proibido", repleto de hits como "Agora só falta você" e "Ovelha negra". Depois de dois dias no Deic, ela foi levada ao presídio feminino do Hipódromo, onde encontrou uma recepção calorosa das detentas. "Eu saí do camburão escutando palmas e gritos", contou a artista em entrevista de 1976. "Pensei comigo: 'será que estou sonhando?' Aí, vi pelas grades as mãozinhas acenando pra mim e ouvi gritos de 'Rita, Rita, Rita!'. Para chegar na minha cela, atravessei um corredor, e elas dando a maior força".


Na mesma conversa , a artista disse que estranhou a comida da penitenciária, mas contou que engolia tudo, "morrendo de vontade de sobreviver, pensando sempre no meu filho". Ela escreveu uma carta para o guitarrista Roberto de Carvalho, pai de Beto Lee e companheiro dela até hoje. Naquelas páginas manuscritas, Rita se dizia conformada quanto a dar à luz na prisão e pedia ao amor de sua vida para não esperá-la e "fazer o que quiser". Felizmente, o período atrás das grades não se prolongaria muito mais. Depois de oito dias no Hipódromo, a cantora se apresentou na 20ª Vara Criminal para o julgamento. Foi condenada a um ano de prisão domiciliar e multa de 50 salários mínimos. Naquele período de reclusão, Rita morou na casa de seus pais, na Vila Mariana. Ela podia sair diariamente, a partir das 7h, mas tinha que estar de volta às 19h. Na entrevista ao GLOBO de novembro de 1976, a cantora disse que, apesar da acolhida das outras detentas, viveu momentos de muita tristeza na cadeia, sem saber quando sairia dali. "Se eu não estivesse grávida, acho que não suportaria. Ele me deu muita força, naquele momento de desespero".

Na casa dos pais, a artista foi obrigada a suspender a vida normal de uma estrela do rock. Só podia sair à noite para fazer shows e, mesmo assim, tinha que se submeter a exames toxicológicos. "Acordo cedo, faço natação, que é um exercício legal para a gravidez, volto, tomo café, almoço, escuto um pouco de música e vou para o ensaio no nosso estúdio de Vila Alpina. Fico lá até às cinco da tarde. Aí volto, pois o meu tempo está se esgotando", contou a roqueira ao jornal. "À noite, fico escrevendo, compondo, assisto a todas as novelas, analiso os personagens. Vejo também os noticiosos, tomando conhecimento do que se passa aqui e no mundo".


Quando Beto Lee nasceu, em março de 1977, Rita ainda estava em prisão domiciliar. Ela chegou a escrever uma música, "X 21", inspirada nos dias de Hipódromo (sua cela era o "xadrez 21"), mas a canção foi proibida pela censura. Nos anos seguintes, mesmo com a distensão política, a roqueira continuaria sendo alvo frequente do moralismo. A letra do hit "Banho de espuma", por exemplo, teve que ser alterada para entrar no álbum "Saúde", de 1981. A original dizia "Em plena vagabundagem/Em qualquer posição/Falando muita bobagem/Bulinando com água e sabão". Depois de passar pelo filtro dos militares, ficou: "Em plena vagabundagem/Com toda disposição/Falando muita bobagem/Esfregando com água e sabão". Para alguns pesquisadores, Rita foi uma das artistas mais censuradas da ditadura. Título este que, hoje, a cantora, ironicamente, considera uma espécie de estrela no currículo. MARY LOU WILLIAMS E BILLIE HOLIDAY Nascida Mary Elfrieda Scruggs, em Atlanta, Mary Lou Williams cresceu em Pittsburgh, onde aprendeu sozinha a tocar piano aos 4 anos e começou a tocar publicamente dois anos depois. Em 1924 ela começou a excursionar no Circuito Orpheum e no ano seguinte tocou com Duke Ellington e os Washington.


Em 1930, Williams viajou para Chicago e gravou seu primeiro disco solo, "Drag 'Em" e "Night Life", que foi um sucesso nacional. Logo ela estava fazendo shows solo e trabalhando como arranjadora de escritores freelance para nomes notáveis ​​como Earl Hines e Tommy Dorsey. Em 1937 ela escreveu "Roll 'Em" (1937) para VIP Benny Goodman , que foi gravada para o LP "When Buddhah Smiles" de Goodman, com Fletcher Henderson e VIP Gene Krupa na bateria. Ao todo, ela escreveu mais de 350 composições.

Glória da manhã, uma biografia de Williams por Linda Dahl (University of California Press, 1999), descreve uma ruptura entre Mary Lou e seu primeiro marido John Williams sobre "o gosto que ela adquiriu pela maconha". Dahl escreveu: "Kansas City era um importante centro ferroviário do país, distribuindo drogas junto com milho e trigo, por isso estava facilmente disponível nas boates de lá". Incapaz de lidar com bebida, maconha "concordou com ela". John disse que Mary Lou havia sido transformada em refrigerante por um colega de banda do Clouds of Joy, um grupo que gravou a música de Earl Thompson sobre refrigerante, "All the Jive Is Gone" em 1936. Williams "achou a maconha calmante, útil para refletir e relaxar às vezes." (Dahl) Em 1941, Mary desenvolveu um estilo de vida que desprezava o álcool e desenvolveu "um gosto por jogos de azar, maconha,


Fazendo a transição do stride piano para o jazz moderno, Williams tocou regularmente no famoso Café Society em Nova York, iniciou um programa de rádio semanal chamado "Mary Lou Williams's Piano Workshop" no WNEW e começou a orientar e colaborar com muitos músicos bebop mais jovens, mais notavelmente Dizzy Gillespie e Thelonious Monk . Barney Josephson a demitiu por fumar maconha uma noite no Café Uptown, embora, como disse Doc Cheatham, "onde todo mundo naquele grupo fumava maconha. Pois é no Café Uptown onde ela se conectou com Billie Holiday, lenda absoluta do jazz. Juntas. O bar tinha um quartinho fora do palco onde os músicos fumavam escondidos dentro. Sempre colocavam um amigo na porta para fumar cachimbo com tabaco para disfarçar o cheiro forte da ganja.

Evitando a heroína junto com o álcool, muito comum na época, Williams "começou uma cruzada ao longo da vida para ajudar os músicos perturbados pelo vício". Em 1958, ela fundou a Fundação Bel Canto para ajudar os músicos a retornar à sua arte, estabelecendo brechós no Harlem para arrecadar dinheiro e contribuindo com 10% de seus próprios ganhos. Infelizmente, ela não conseguiu ajudar a amiga Billie Holiday, que foi muito perseguida por ser maconheira. “Na década de 1930, mesmo antes da maconha ser criminalizada, o nome de Billie Holiday se tornou uma espécie de senha entre os fumantes de maconha que formaram uma rede ad hoc de usuários em todo o país”, escreveu Buzzy Jackson no livro “A Bad Woman Feeling Good” . "Sempre que você ia para cidades diferentes", lembrava Marie Bryant, amiga de Holiday, "logo, um cara batia na porta do seu hotel com um fonógrafo e os discos de Louis [Armstrong] e Billie... e uma coisinha de maconha... E isso aconteceu em todo o país, uma sociedade de pessoas que simplesmente amavam Billie. Holiday foi caçado por nada menos que Harry J. Anslinger, o primeiro e de longa data "czar antidrogas" que elaborou leis e tratados internacionais proibindo a maconha. De acordo com uma pesquisa recém-publicada por Johann Hari , Holiday recebeu sua primeira ameaça do FBN (Federal Bureau of Narcotics) de Anslinger depois que ela gravou "Strange Fruit".um lamento contra o linchamento, em 1939. Anslinger designou o agente Jimmy Fletcher para rastrear os movimentos de Holiday; ele tentou acertá-la, mas acabou se tornando um admirador. "Ela era do tipo que conseguia fazer qualquer um simpatizar porque era do tipo amoroso", escreveu Fletcher.


Mais tarde, "a capacidade do Holiday de consumir drogas e álcool era lendária". (Greene.) Ela tomava estimulantes para cumprir seu cronograma de apresentações e depois tomava pílulas, bebia e fumava maconha, eventualmente injetando heroína também. Não é à toa: de acordo com o livro de Hari, Chasing the Scream: The First and Last Days of the War on Drugs , seu empresário/cafetão Louis McKay a espancou tanto que ela teria que enfaixar suas costelas para subir ao palco. McKay procurou Anslinger e se encontrou com ele em DC, concordando em preparar Billie para uma apreensão pela qual ela foi a julgamento. Pedindo para ser enviado para uma instalação de tratamento, Holiday foi forçado a ir peru frio na prisão enquanto cumpria uma pena de um ano. Depois, ela foi destituída de sua licença de cabaré como ex-presidiária e não pôde se apresentar em nenhum local onde o álcool fosse servido. FONTES: Jornal O Globo.


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